O Âmbito da Comunicação da Inspetoria Nossa Senhora Aparecida (BAP), de São Paulo, encontrou-se com a Irmã Anna Bello Soares, Filha de Maria Auxiliadora (FMA), que, nos últimos meses, esteve no Brasil, em visita à família e para um período de descanso e férias.
Irmã Anna Bello Soares é natural do estado de Minas Gerais, especificamente da cidade de Carangola, e — na condição de missionária ad gentes — até março deste ano morou e trabalhou em Cabinda (Angola), em um Centro Infantil, onde são atendidas crianças de 2 a 5 anos. Atuou também na Paróquia Santo Agostinho, na coordenação da catequese, na comissão econômica e no acompanhamento do grupo Congregação Mariana.
Neste encontro com Irmã Anna Bello, um bate-papo missionário interessante!
Âmbito da Comunicação: Irmã Anna Bello, conte-nos um pouco de você, de sua vida em Carangola (MG) e de sua trajetória no Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora.
Irmã Anna Bello: Antes de entrar no Instituto, eu frequentava uma paróquia onde os padres eram da Congregação dos Vicentinos (São Vicente de Paulo). Eu não conhecia nenhuma congregação. Quando manifestei o desejo de ser religiosa, o pároco, Padre Max Kaffman — que era alemão — me disse que iria arrumar uma congregação para mim. Eu tinha 13 anos.
O padre Max conhecia as Irmãs Salesianas por causa da Revista Primavera.
Eu não entendia nada de carisma. “Cai nessa rede e aqui fiquei”. Foi Maria Auxiliadora quem me trouxe para sua casa. Meus pais eram muito devotos de Nossa Senhora!
Fui para o Colégio de Santa Inês (São Paulo). Quem me recebeu foi a Irmã Jecia Pinheiro. Ela disse que eu era muito nova! Fiquei na Escola Doméstica. Depois fui para Araras, terminei o Ensino Fundamental, comecei o aspirantado. Fiz o postulantado em São José dos Campos, o noviciado em São Paulo, no João XXIII. Fiz os votos perpétuos no dia 24 de janeiro de 1976.
Projeto África: descoberta da vocação missionária
Irmã Anna Bello: Quando o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora abriu o Projeto África, foi pedido às Inspetorias do Brasil — São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife — quatro Irmãs para abrir a presença das FMA em Angola.
A Inspetora da época, Irmã Rosalba Perotti, comunicou às Irmãs da Inspetoria que o Instituto estava pedindo uma Irmã para Angola, para o Projeto África. Quem estivesse disposta era para fazer o pedido. As condições: quem tivesse os pais vivos deveria ter autorização deles. Quem fosse para Angola deveria ficar pelo menos cinco anos, sabendo que o País estava em guerra.
Eu senti dentro de mim o apelo de Deus, se bem que eu nunca pensei em ser missionária. Eu era (e sou!) muito apegada à minha família, muito medrosa. Até de morto eu tinha medo! Mas, quando Deus chama, dá força e coragem.
Desejava muito participar do Projeto Rondon, criado pela Madre Palmira, porém nunca deu certo. Sentindo, então, o apelo de Deus, fiz o pedido. Não sei quantas Irmãs fizeram o pedido, mas, entre elas, eu fui a escolhida.
Quando fui me despedir dos meus pais, eles me recomendaram: «Seja boa, ninguém perde por ser bom». «Se Deus te chama, vai». Hoje, eles estão na eternidade; eu continuo amando minha família e a missão que Deus me confiou em Angola.
Preparação para a Angola e partida
Irmã Anna Bello: Em agosto de 1982, partimos para a Itália. Em Roma, fizemos a preparação missionária na Universidade Urbaniana. Ficamos lá esperando o visto para entrar em Angola. Penso que não foi por acaso que o nosso visto saiu no dia 12 de outubro de 1983, dia de Nossa Senhora Aparecida.
No dia 23 de outubro, Domingo das Missões, recebemos o Crucifixo missionário das mãos do Papa São João Paulo II, na Basílica de São Paulo Fora dos Muros.
Nessa mesma noite, partimos para Angola. Foi a Madre Rosetta Marchese quem nos enviou. Dia 24 de outubro, às 04h30, chegamos a Angola. Nossa Senhora queria mesmo as suas filhas nas terras africanas. O visto, 12 de outubro; a chegada a Angola, 24 de outubro, comemoração mensal de Nossa Senhora Auxiliadora.
Nossa primeira missão foi na comunidade de São José, no Bairro da Lixeira (Sambizanga). Essa comunidade pertencia à Paróquia São Paulo, dos Salesianos de Dom Bosco.
No próximo dia 24 de outubro completo 43 anos de Angola. Nesses anos fiz de tudo um pouco.
Fundações e serviço ao povo
Irmã Anna Bello: Logo nos inícios, tudo era muito difícil. O sistema político — socialista-comunista — só permitia atividades realizadas dentro da igreja: alfabetização, curso de catequistas, corte e costura, catequese, atendimento aos doentes (primeiros socorros). Graças a Deus, no tempo em que ficamos na Itália, a Madre Ilka P. de Moraes me enviou a Pinerolo (Cottolengo) para fazer um pequeno curso de enfermagem: primeiros socorros.
A terceira comunidade que abrimos foi no Calulo, a uns 200 km da Capital (fica no Cuanza Sul, Libolo). Nessa missão foi o tempo mais difícil. Uma zona que sofreu muitos confrontos militares (ataques). Ficamos 18 meses isoladas, sem comunicação com o Instituto. Aqui meu medo dos mortos desapareceu! Nessa comunidade até coveira eu fui. Lembrando que uma das obras de misericórdia é enterrar os mortos... Muitos mortos pela guerra. Um cenário muito triste ver corpos humanos sendo comidos pelos animais.
Nestes tempos de Angola, 43 anos, só tenho que dar graças a Deus e a Maria Auxiliadora. Nossa Senhora esteve, está e estará sempre do nosso lado nos protegendo. Passamos por muitos perigos: bombas, minas, ataques..., mas Nossa Senhora sempre nos protegeu, nada de mau nos aconteceu.
Âmbito da Comunicação: Irmã Anna Bello, você é uma Filha de Maria Auxiliadora, mas também uma missionária ad gentes. O que é ser missionária ad gentes?
Irmã Anna Bello: Ser missionária para mim é morrer para si mesma; a vida deve ser uma entrega total. Muito respeito pela terra que você pisa, «tire as sandálias», pelo povo que te acolhe. O missionário tem que esquecer o seu «arroz com feijão». Procurar adaptar-se à alimentação do país onde você está, degustar o que é da cultura onde você está. No meu caso, em Angola é: funge, muamba, pirão, sacafolha, peixe, ginguinga, cachupa, etc. Na vida tudo é possível se você tem amor pela terra onde você está.
Âmbito da Comunicação: De todas as suas experiências como missionária em Angola, qual foi a mais forte, mais impactante e que mais trouxe aprendizagens para você? Fale um pouco sobre ela.
Irmã Anna Bello: O mais impactante para mim foi a pobreza e a solidariedade do povo angolano. Quando chegamos, tudo era difícil, não se encontrava nada para comprar. Lojas... se tinham alguma coisa nas vitrines (como diz o português, na montra), era só mostruário. Para conseguir alguma coisa era só através de requisição (se tinha o produto) ou procurando atalho, isto é, alguma pessoa que tinha conhecimento.
Âmbito da Comunicação: Hoje, olhando para a trajetória de 43 anos de vida missionária em Angola, quais os desafios que mais lhe ajudaram a amadurecer o seu sim inicial, como FMA e como missionária? Algum arrependimento?
Irmã Anna Bello: Toda a nossa vida é um constante aprendizado. Porém, o que mais me ajudou foi ver como os angolanos, com tão pouca coisa, viviam sempre alegres. Não reclamavam da situação. Não sei se era por medo do sistema, se era resignação, mas estavam sempre alegres. Outra coisa que chamava a atenção era a solidariedade: o pouco que tinham, sabiam partilhar. Por exemplo, quando saímos da casa das Irmãs de São José de Cluny e fomos para a nossa primeira casa — um apartamento na comunidade da Lixeira —, nos ofereceram quatro de tudo: quatro copos, quatro pratos, quatro chávenas, quatro talheres. As Irmãs ofereceram garrafa térmica, cafeteira, panelas, etc.
Como na vida é importante viver realmente como irmãos! Estes primeiros anos na missão me fizeram pensar muito nas primeiras comunidades cristãs. Viviam a fraternidade. Não é o muito ou o pouco que nos faz felizes. O que nos faz felizes é amar como Jesus nos ensinou.
Não me arrependo do sim que dei quando fui para as missões. Sou feliz na minha vocação de FMA e na vocação missionária. Se tivesse que começar tudo de novo, eu começaria com o mesmo entusiasmo e alegria do primeiro sim que dei a Deus.
Âmbito da Comunicação: Um grande desafio para a Vida Religiosa Consagrada neste nosso tempo é a diminuição das vocações. Parece que hoje as jovens já não conseguem mais dar um passo e decidir pela Consagração. Sabemos que a diminuição do número de jovens vocacionadas à Vida Consagrada tem diferentes causas. Para as jovens em geral, que já decidiram a própria vocação, e para aquelas que ainda estão pensando em como será o seu futuro, qual a mensagem que você deixa?
Irmã Anna Bello: Infelizmente, nós estamos num mundo do “descartável”. Apesar de muitos jovens estarem à procura de Deus, eles têm medo de assumir compromissos definitivos. São inseguros.
Eu, como FMA e missionária há 43 anos em Angola, digo a vocês, queridos e queridas jovens: não tenham medo de dizer sim a Deus. Se você sente dentro do coração que Deus te chama, responda sim. Deus ama e confia em você. Diga sim, é maravilhoso seguir Jesus Cristo, Ele não nos abandona. O mundo pode nos desiludir, mas Jesus Cristo não; Ele é fiel.
Não tenham medo das suas limitações e fraquezas. Jesus é a nossa força! Como diz o provérbio — «Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos» —, desejo que a certeza de que Deus está sempre ao nosso lado, nos amparando, abençoando e caminhando conosco, seja a força para vocês, queridos e queridas jovens. Respondam sim ao chamado do Senhor.
Tem um canto do Padre Zezinho de que gosto muito e que me faz pensar: «...eu vivia tão tranquilo e descansado, que pensava ter chegado ao que busquei. Pouco a pouco, ao caminhar na longa estrada, percebi que havia tido uma ilusão, mas, depois que meu Senhor passou, ilusão e comodismo se acabou».
Querido/a jovem, você nunca pensou em ser missionário/a ad gentes? Fazer uma experiência de voluntariado em um país de missão? Muita gente ainda não ouviu falar de Jesus. Você, que é batizado/a e conhece a Palavra de Deus, vá anunciar aos irmãos essa Boa-Nova!