O Âmbito da Comunicação da Inspetoria Nossa Senhora Aparecida (BAP), de São Paulo, encontrou-se com Irmã Jandira Rodrigues Camargo, Filha de Maria Auxiliadora (FMA) que, neste início de 2026, comemorou os seus 25 anos de Profissão Religiosa Consagrada, ou seja, celebrou as Bodas de Prata.
Irmã Jandira é natural do estado de São Paulo (SP), especificamente da cidade de Ibiúna, e atualmente, na condição de missionária ad gentes, mora e trabalha, na Província de Ícolo e Bengo – no Município do Zango – Diocese de Viana (Angola).
Irmã Jandira vive na comunidade Beata Maria Romero Meneses, onde funciona a escola Maria Auxiliadora, que é uma escola para adultos no sistema de Módulo – EJA. Significa: Escola Jovem Adulto. Nela, é dada prioridade para as pessoas que não tiveram oportunidade de estudar no tempo e idade certa. São pessoas de baixa renda.
Nesta mesma escola, funciona o Centro Socioprofissional Maria Auxiliadora – CESA. Nele são ministrados vários tipos de cursos que acontecem semanalmente e também alguns aos sábados. São cursos de breve e longa duração que direcionam para diferentes profissões: Eletricidade, Inglês, Francês, Informática, Excel avançado, Secretariado, Contabilidade simples, Contabilidade Primavera, Agregação Pedagógica, Hotelaria, Pastelaria, Culinária e outros.
A Comunidade de Irmã Jandira é uma comunidade internacional: são duas FMA do Brasil, uma da Coreia e uma da Angola.
Elas trabalham também no Centro Pastoral São João Baptista com dois padres Angolanos da Diocese de Viana. Realizam Catequese, Pastoral Juvenil, acompanhamento espiritual dos grupos e associações que fazem parte da Família Salesiana.
No encontro com Irmã Jandira, um bate-papo missionário interessante!
Âmbito da Comunicação: Irmã Jandira, conte-nos um pouco de você, de sua vida em Ibiúna e de sua trajetória no Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora.
Irmã Jandira - Nasci no dia 04 de julho de 1971, no bairro Rio de Una, Município de Ibiúna, São Paulo. Sou filha de Lazaro Rodrigues de Camargo e Guiomar Francisca Vieira. Somos 10 filhos, sendo 8 mulheres e 2 rapazes. Sou a 9ª filha. Minha família é bem numerosa: contando a primeira, a segunda e a terceira gerações, tenho até medo de dizer quantos somos!
Fui batizada no dia 8 de agosto de 1971, por Domingos da Silva e Dilha. Tive uma infância um pouco diferente do normal das famílias: desde cedo – todos os filhos – trabalhávamos com os meus pais na roça. Quando eu tinha 6 anos e minha irmã caçula tinha 4 anos, aprendemos a cuidar da casa e a cozinhar com o meu pai, porque neste tempo o meu pai teve um AVC do lado esquerdo, paralisando o braço, olho e a perna. Mesmo assim, nos ensinou a cozinhar e fazer o trabalho de casa, enquanto a minha mãe e meus irmãos trabalhavam na roça. Não tivemos oportunidade de ir para a escola com a idade certa. Quando fomos morar no centro de Ibiúna, o meu pai fez o esforço de colocar todos na escola, mas nem todos deram continuidade aos estudos, porque estávamos acostumados a trabalhar e achávamos que não era tão necessário. Eu, quando fui para a escola, também já tinha passado da idade, mas fiz até a 6ª classe, deixei de estudar e retornei ao trabalho. Em 1994, conheci o padre Plínio. Disse ao padre Plínio que gostava muito de participar da missa dele, e assim fomos nos conhecendo e ficamos grandes amigos. Com o passar do tempo, ele me convidou para ajudar na Boscolândia dos jovens: era o oratório de férias que acontecia todos os anos. Quando finalizou o oratório de férias, o padre Plínio convidou-nos – éramos três jovens – para ajudar num oratório que iria iniciar numa periferia, todos os domingos às 10h. Aceitei esse desafio de estar no oratório e assim fui conhecendo melhor os Salesianos. Foi um ano de muita graça de Deus. Um dia, no oratório, conheci o padre Hilário, que acabava de chegar das missões de Angola. Ele contava muitas histórias da missão, e isso também foi me dando vontade de conhecer a vida missionária. Um dia, pedi ao padre Plínio para conversar com ele, e fui; conversei com ele por muito tempo, e neste dia falei que gostaria de ser missionária igual ao padre Hilário. Ele riu e me disse: «Quem sabe um dia você irá como voluntária». E assim o tempo foi passando, e eu sempre ia conversar com o padre Plínio e voltava sempre neste assunto. Mas acho que cansei o padre Plínio, pois ele me disse: «Por que você não entra com as Irmãs Salesianas?». Era o ano de 1994, e ele me disse: «Precisa voltar a estudar». Foi outro desafio!
Quando disse ao padre Plínio que voltaria a estudar, ele me abraçou e disse: «Boa sorte». Só que eu trabalhava de babá das 7h às 17h. E os anos foram passando. Eu queria ir logo com as Irmãs, mas ele me disse: «Você ainda não pode ir, faltam algumas coisas para melhorar, vai chegar o seu tempo». Mas eu me perguntava: «Faço tudo o que ele me diz, o que será que falta? Será que preciso ter muito dinheiro? Mas não tenho». E o tempo passava.
Durante o ano de 1995, continuei a estudar e a esperar sempre uma resposta… chegou outubro… no mês de outubro, o padre Hilário deu o testemunho da vida missionária em Angola, e aquilo me encantava de ouvir... outras jovens também tinham essa vontade de ir para as missões. Neste mês, o padre Plínio me convidou para participar do pinga-fogo que iria acontecer no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora com a Irmã Silvia Pela. Eu participei, e fui apresentada pelo padre Plínio, e conversamos. Ela me fez o convite para participar de um encontro vocacional em novembro no Colégio de Santa Inês. Fomos em duas: minha colega e eu. Lá passamos o dia com as Irmãs.
Neste dia, conheci as Irmãs Lúcia Maistro, Bernardina e Adair, que morava no aspirantado. Lembro como se fosse hoje o convite que a Ir. Lúcia Maistro me fez para viver na Casa do Puríssimo Coração de Maria. Depois, fiquei com medo, porque tinha uma responsabilidade com o casal onde eu trabalhava cuidando de um bebê de 4 anos e uma outra bebê de um mês, pensando como eu iria falar para o casal que eram tão bons comigo!?
Mas nunca resolvi nada sem falar com o padre Plínio; foi um momento de decisão da minha vida e ele me ajudou a discernir e a dar a resposta que Deus esperava de mim. Lembro bem: foi no dia 27 de novembro de 1995. Liguei para a Ir. Lúcia Maistro e disse: «Eu vou». Ela me disse: «Tudo bem»; me escreveu uma cartinha dizendo o que eu precisava levar e a data. Fui no início de fevereiro. Cheguei no terminal Barra Funda, encontrei a Irmã Nilza que acompanhou até o terminal Tietê, e despachou-me para Guaratinguetá. Lá encontrei a Irmã Terezinha Santos e a Irmã Celinha. Lá passei o ano de 1996. Era acompanhada pela Irmã Zilá e, no final de semana, ajudava no oratório do Colégio do Carmo. Depois, fiz a formação do aspirantado ao noviciado. Professei em 13 de janeiro de 2001. Fiz o meu tempo de Juniorato na então Inspetoria Santa Catarina de Sena. Professei os votos perpétuos em 21 de janeiro de 2007, ano do Centenário do Colégio de Santa Inês. No tempo de Juniorato, estudei, ajudei na pastoral, participei de várias semanas missionárias das nossas escolas, e assim foi também um tempo que me ajudou a discernir para fazer o pedido para ser missionária.
Âmbito da Comunicação: Irmã Jandira, você é uma Filha de Maria Auxiliadora, mas também uma missionária ad gentes. O que é ser missionária ad gentes?
Irmã Jandira – Sim, sou uma Filha de Maria Auxiliadora apaixonada, orgulhosa e feliz por fazer parte desta família de Dom Bosco e Madre Mazzarello, porque sou a preferida de Deus. Ele me escolheu entre tantos “barulhos” e me chamou: «Vem e segue-me», eu respondi: «Aqui estou para servir e amar».
Para ser missionária ad gentes é preciso fazer discernimento, rezar e pedir as luzes do Espírito Santo; é ter um bom orientador espiritual para ajudar e realizar um bom diálogo com a diretora da comunidade, deixando tudo bem claro. Da mesma forma, deve-se proceder com a Inspetora para, só assim, dar o último passo: fazer um pedido por escrito à Superiora Geral, a Madre. Por fim, resta esperar o momento da resposta do Instituto.
Agora explico o que é ser missionária ad gentes: primeiro, é um trabalho lindo e gratificante. É um trabalho de missão na Igreja Católica: evangelizar, levando a Palavra de Deus pelo mundo, não importa a religião nem a raça, e transmitir o amor de Jesus Cristo. Ser missionária ou missionário ad gentes é uma segunda vocação; nem todos são chamados a ser missionários fora de suas terras e realidades, deixando seu conforto. No primeiro momento, pode-se ter um impacto que não se imagina. Muitas vezes, vivemos apenas do necessário na missão; mas, como batizados, somos discípulos missionários.
A vida missionária em Angola é linda e desafiadora. Ser missionária é deixar tudo e mais um pouco; é realizar o projeto traçado por Deus em sua vida e deixar-se gastar pelo amor ao próximo, sem olhar a quem, realizando a missão com amor e compaixão. Perceber que Dom Bosco e Madre Mazzarello sonharam com a Congregação... é ser Maria Auxiliadora entre o povo, de modo especial para a juventude mais necessitada.
Tenho as terras angolanas como minha segunda terra, não só de missão, mas de entrega total; mesmo sentindo o desafio que possa encontrar, é ter os olhos fixos em Jesus e Maria Auxiliadora. É muito lindo ver um jovem ou uma jovem que também busca a vida consagrada nos dias de hoje, percebendo quanta coisa o mundo oferece, e ver neles o olhar e o ouvido atentos para nos escutar falando de Jesus, Maria, Dom Bosco e Madre Mazzarello.
Nós, missionárias e missionários, somos vistos como ouro que brilha, testemunho vivo do nosso carisma em meio à juventude. Completo neste ano 14 anos de missão, de amor e alegria; não digo 14 anos de cansaço, mas 14 anos de doação e de entrega total com o coração salesiano.
Âmbito da Comunicação: Comemorar 25 anos de Profissão Religiosa é comemorar a vida que foi acontecendo ao longo deste tempo. Como foi a emoção de fazer os Votos no Instituto FMA lá no ano 2001, e qual foi a emoção de poder celebrar o Jubileu de Prata em 2026? Emoções diferentes ou a mesma emoção com intensidade diferente?
Irmã Jandira – Os primeiros votos em 2001 foram um momento único e de uma emoção muito grande; dizer “sou Filha de Maria Auxiliadora” traz uma responsabilidade maior. Mas posso dizer que sinto o amor de Deus renovado a cada dia. Nunca esqueci de uma frase de Irmã Enriqueta Sorbone, FMA: «Fazer de cada dia como se fosse o único».
A emoção de celebrar 25 anos... É uma emoção diferente porque já se passaram muitos anos. Recordar é viver, é rever o coração e rever as minhas companheiras de caminhada; somos três, uma em cada continente: Eliane Petri, em Roma, em sua missão; Edileusa Matos, em Recife – Brasil, em sua missão; e eu, Jandira R. Camargo, em Angola como missionária ad gentes.
Celebrar 25 anos é celebrar uma vida cheia de amor, alegria e gratidão pela minha vocação, que Deus me deu e continua a fortalecer através das orações das minhas queridas irmãs da Congregação. Tenho como lema: “Vai, eu te envio como pastora em meio à juventude”. Hoje me dedico à juventude mais pobre e vulnerável.
Âmbito da Comunicação: Hoje, olhando para a trajetória de 25 anos de Vida Religiosa Consagrada, e de 14 anos de vida missionária em Angola, quais os aprendizados que ficam? Algum arrependimento?
Irmã Jandira – Vale a pena se doar, consagrar a vida e deixar-se consumir pelo Reino e pelo amor aos povos. Não saberia dizer o que faria sem as crianças, os adolescentes, jovens e adultos que me fazem feliz na missão. Algum arrependimento? Sim, o de não ter chegado antes na vida Salesiana.
Âmbito da Comunicação: Um grande desafio para a Vida Religiosa Consagrada neste nosso tempo é a diminuição das vocações. Parece que hoje as jovens já não conseguem mais dar um passo e decidir pela Consagração. Sabemos que a diminuição do número de jovens vocacionadas à Vida Consagrada tem diferentes causas.
Para as jovens em geral, que já decidiram a própria vocação, e para aquelas que ainda estão pensando em como será o seu futuro, qual a mensagem que você deixa?
Irmã Jandira – Digo: Deus não deixou de chamar o jovem ou a jovem, mas Ele dá liberdade de escolha, Ele está em todo canto, sabemos que existem muitos carismas, mas pode acreditar: Deus não faz diferença de pessoas, porque Ele ama continuamente a todos.
«O mundo, queridos jovens, os induz a fazer escolhas precipitadas e a encher os dias de barulho, impedindo a experiência de um silêncio aberto a Deus, que fala ao coração. Tenham a coragem de parar, de escutar dentro de vocês e de perguntar a Deus o que Ele sonha para vocês. O silêncio da oração é indispensável para “interpretar” o chamado de Deus na própria história e para dar uma resposta livre e consciente.» (Papa Francisco. Roma, Hospital Gemelli, 19 de março de 2025)
Jovem: venha fazer parte desta missão ad gentes, você não se arrependerá.
Convido os jovens, as jovens que querem fazer uma experiencia de voluntariado... podem vir, estamos sempre de portas abertas. E aqueles e aquelas que querem consagrar sua vida, como Filhas de Maria Auxiliadora ou Salesianos de Dom Bosco, também podem nos procurar nas redes sociais, paróquias e escolas salesianas. Estamos presentes no mundo todo. Na vida salesiana existe um segredo: vem e verá!